Com custo 100x menor, DeepSeek expõe fragilidade do modelo americano de "gastar até ganhar"
O silêncio que antecede a tempestade no Vale do Silício tem um nome: DeepSeek V4. Exatamente um ano após provocar o maior rombo da história do mercado de ações americano com o lançamento do seu modelo V3, a startup chinesa está pronta para desferir um novo golpe. E desta vez, o roteiro pode ser ainda mais devastador para as gigantes de tecnologia dos Estados Unidos .
Quando o DeepSeek V3 chegou ao mercado no início de 2025, ninguém levou muita fé. Afinal, como um modelo de linguagem de última geração, treinado por menos de US$ 6 milhões e usando chips Nvidia de potência reduzida (os famosos H800, uma versão mais fraca permitida pelas sanções dos EUA), poderia rivalizar com os sistemas da OpenAI ou do Google? A resposta veio rápida e cruel: o Nasdaq despencou 3% em um único dia, e a Nvidia, a menina dos olhos da revolução da IA, viu US$ 600 bilhões de seu valor de mercado evaporarem . Foi o maior tombo da história para uma empresa de capital aberto.
Agora, a história se repete, mas o cenário é muito mais complexo. A DeepSeek confirmou que o lançamento do V4 é "iminente", e as casas de análise financeira já estão em estado de alerta máximo .
Se o V3 assustou pela eficiência, o V4 promete a humilhação. De acordo com relatórios técnicos antecipados, a nova versão traz inovações que desafiam a lógica do "quanto maior, melhor" que domina o setor.
Enquanto as empresas americanas seguem construindo clusters de computação monstruosos e consumindo energia como pequenas cidades, a DeepSeek apostou em uma arquitetura revolucionária chamada "Manifold-Constrained Hyper-Connections (mHC)" e na memória condicional "Engram" . Na prática, isso permite que o modelo processe mais de 1 milhão de tokens (unidades de texto) de uma só vez, com uma eficiência energética e de custo que as empresas de São Francisco não conseguem sequer simular.
O resultado é um modelo que, segundo testes de benchmark vazados, supera o ChatGPT e o Claude em tarefas complexas de programação, justamente o core business das IAs proprietárias . Se isso se confirmar, o argumento de venda das Big Techs desmorona.
Para entender o pânico que toma conta de Wall Street, é preciso olhar para os balanços das gigantes americanas. Amazon, Microsoft, Meta e Google (Alphabet) queimaram centenas de bilhões de dólares ao longo de 2025 em infraestrutura de IA. A previsão de gastos para 2026 é ainda mais assustadora: mais de US$ 650 bilhões .
Esse número é a aposta de que a inteligência artificial será um mercado tão caro e complexo que apenas os EUA terão capacidade financeira para liderá-lo. A DeepSeek, com seu custo de desenvolvimento ínfimo, prova exatamente o oposto: que é possível inovar com criatividade e eficiência, não apenas com cheque grosso. "O mercado está começando a questionar se existe uma 'bolha de capex' (despesas de capital). Se um concorrente faz mais com menos, para que serve todo esse dinheiro?" questiona um analista da JPMorgan, em nota .
A tensão não é apenas comercial ou acionária; ela é também geopolítica. A CNBC e o Economic Times revelaram que há uma investigação federal em andamento nos EUA para apurar se a DeepSeek violou sanções de exportação ao treinar o V4 .
A suspeita é que a empresa chinesa tenha utilizado os chips Nvidia Blackwell — os mais avançados do mundo e proibidos para venda à China — para alcançar seu desempenho superior. Se isso for confirmado, o caso pode escalar para um incidente diplomático de grandes proporções, afetando ainda mais a cadeia de suprimentos de semicondutores .
Para completar o clima de guerra fria tecnológica, a Anthropic (dona do Claude) acusou publicamente a DeepSeek de roubo de propriedade intelectual em "escala industrial". A alegação é que a empresa chinesa teria usado mais de 24 mil contas falsas para "destilar" dados proprietários do Claude e turbinar seu treinamento .
O que esperar quando o DeepSeek V4 for oficialmente lançado? A história recente sugere volatilidade.
Em janeiro de 2025, o índice de semicondutores (SMH) caiu quase 10%, e o Nasdaq demorou semanas para se recuperar totalmente . Agora, com a possibilidade de um "DeepSeek Part Two", os investidores estão vendendo ações preventivamente. Na última segunda-feira, antes mesmo do lançamento oficial, o Dow Jones já havia despencado mais de 700 pontos em um único pregão, reflexo do nervosismo com as notícias que chegam da China .
Há, no entanto, quem enxergue uma luz no fim do túnel. Alguns economistas citam o Paradoxo de Jevons para acalmar os ânimos: se a IA ficar mais barata, o consumo por ela aumentará exponencialmente. Ou seja, no longo prazo, a Nvidia e as big techs podem até se beneficiar de uma adoção massiva, mesmo com margens de lucro menores .
O lançamento do DeepSeek V4 não é apenas mais um update de produto. É um divisor de águas que coloca em xeque a hegemonia tecnológica americana e a solidez dos seus mercados financeiros. Com um custo de produção que não paga o salário anual de um executivo de Silicon Valley, a China mostra que aprendeu a lição: não precisa inventar a roda, apenas otimizá-la até que a roda americana quebre.
Enquanto o V4 não chega, a indústria de IA nos EUA só pode fazer uma coisa: segurar firme .